Mostrando postagens com marcador História da Ciência. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador História da Ciência. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Por que as Galinhas atravessam as Estradas?



Por que as galinhas atravessam as estradas?
Platão: Não sei se as galinhas atravessam as estradas. Isso parece ser apenas uma ilusão dos nossos sentidos.
Aristóteles: É da Natureza das galinhas atravessarem as estradas. O outro lado da estrada é o seu lugar natural.
Zenão de Eleia: As galinhas fazem isso apenas para mostrar que não conseguem chegar do outro lado da estrada.
Pitágoras: As galinhas atravessam as estradas para manter a harmonia entre elas.
Arquimedes: A galinha estava mergulhada na água quando de repente sentiu um empuxo para cima que a fez sair correndo e atravessar a estrada gritando Eureka.
Copérnico: Apesar das evidências dos sentidos eu posso mostrar que é matemáticamente mais simples admitir que a estrada atravessa as galinhas.
Galileo: As galinhas atravessam as estradas porque elas geralmente são inclinadas e também para observarem melhor as estrelas do outro lado.
Kepler: Na verdade as galinhas atravessam a estrada em uma trajetória que é um arco de elipse.
Newton: Galinhas em repouso tendem a permanecer em repouso, galinhas em movimento tendem a atravessar estradas.
Boyle: As galinhas estavam submetidas a uma grande pressão em casa e por isso atravessam as estradas.
Volta: É a diferença de potencial entre os dois lados que faz as galinhas atravessarem a estrada.
Watt: Ao atravessarem as estradas as galinhas estão apenas reduzindo a sua potência motriz.
Doppler: As galinhas atravessam as estradas devido ao efeito exercido pelas pessoas que se afastam ou que se aproximam das mesmas.
Ampere: As galinhas atravessam as estradas em disparada para se manterem correntes
Gauss: As galinhas atravessam as estradas devido à personalidade magnética do galo que está do outro lado da mesma.
Ohm: É preciso levar em conta que a estrada oferece uma certa resistência para que as galinhas a atravessem.
Lenz: Eu creio que há uma força de oposição crescente exercida sobre as galinhas à medida que elas tentam atravessar a estrada.
Graham Bell: As galinhas atravessam as estradas para chegarem ao telefone mais próximo
Thomas Edison: As galinhas atravessam as estradas porque acham esta ser uma experiência iluminadora.
Foulcault: Isso é apenas uma ilusão. Na verdade é a rotação da Terra que faz parecer as galinhas atravessarem as estradas.
Hertz: Tudo que se pode afirmar é que antes as galinhas atravessavam as estradas com uma maior frequência.
Marie Curie: As galinhas estavam radiantes de entusiasmo e por isso atravessaram a estrada.
Planck: Na verdade, as galinhas não atravessam a estrada de forma contínua, mas aos saltos.
Einstein: Se a galinha atravessa a estrada ou a estrada atravessa a galinha, isso depende do seu referencial.
Heisenberg: Nós não podemos saber ao certo de que lado da estrada a galinha se encontra, mas apenas que ela está atravessando a estrada muito depressa. Como ela atravessar a grande velocidade você pode observar a galinha ou medi-la, mas não pode fazer as duas coisas simultaneamente.
Pauli: De fato, já existia uma galinha de cada lado da estrada. E essas duas galinhas se diferenciam apenas pela maneira como giram em torno de si mesmas.
Steven Weinberg: Isso se deve ao fato de que as coisas aconteceram de tal modo nos três primeiros minutos do Universo que ficou determinado que as galinhas atravesassem as estradas.
Stephen Hawking: Na verdade existem muitos Universos paralelos nos quais a mesma galinha está em diferentes estágios atravessar a estrada. Apenas uma dessas galinhas atravessa completamente a estrada quando a sua função de onda coalesce.

A Internet apresenta  diferentes versões para esta “profunda questão filosófica”. Selecionei as melhores respostas e acrescentei algumas outras de minha própria autoria.

sábado, 19 de novembro de 2011

ALGUMAS TENDÊNCIAS NA UTILIZAÇÃO DE RECONSTRUÇÕES EXPERIMENTAIS HISTÓRICAS NO ENSINO DA FÍSICA

Durante mais de dez anos eu lecionei a disciplina Intrumentação para o Ensino da Física em paralelo com História da Física Clássica. Neste longo período tive a oportunidade de realizar, em conjunto com vários estudantes e alguns colegas, diversas reconstruções históricas de alguns experimentos célebres na Física. Embora eu não tenha a ilusão da existência de experimentos cruciais, ainda assim credito um grande valor pedagógico a essas aludidas reconstruções experimentais.
Penso em escrever algum dia um relato detalhado dessas coisas, mas enquanto isso divulgo abaixo um trabalho que escrevemos (eu e um então colega de departamento) sobre o referido assunto e que foi apresentado em um Congresso de História da Ciência em 2001.



ALGUMAS TENDÊNCIAS NA UTILIZAÇÃO DE RECONSTRUÇÕES EXPERIMENTAIS HISTÓRICAS NO ENSINO DA FÍSICA
VIII SEMINÁRIO DE HISTÓRIA DA CIÊNCIA (SBHC) – MUSEU DE ASTRONOMIA – RIO DE JANEIRO – 2001

Alexandre Medeiros   Departamento de Física (Universidade Federal Rural de Pernambuco)
Francisco Nairon Monteiro Jr   Departamento de Física (Universidade Federal Rural de Pernambuco)

Vários trabalhos têm sido dedicados à análise da importância da utilização da História da Ciência no ensino das ciências. Variando desde os aspectos ligados à motivação dos estudantes até a possibilidade de ser usada como uma ferramenta para a discussão da natureza da Ciência, a utilização da História tem sido defendida sob diferentes pontos de vista. No tocante às formas a serem adotadas, as opções têm sido também numerosas, desde apresentações biográficas, passando por estudos de caso temáticos, até o recurso de técnicas de teatralização. Em um ponto, porém, todas essas tendências parecem convergir: um destaque quase exclusivo aos aspectos teóricos e conceituais da produção científica. Mais recentemente, entretanto, tem nascido a convicção de que a história dos instrumentos científicos e dos experimentos executados com os mesmos, merece uma atenção semelhante àquela até então dedicada apenas aos aspectos teóricos. Assim sendo, iniciativas de reconstruções históricas de experimentos têm também ocupado um papel de destaque, nos últimos tempos, entre os trabalhos de pesquisa que tentam utilizar a história da ciência enquanto um poderoso recurso pedagógico.
O presente trabalho faz uma análise das duas principais tendências de pesquisa existentes nesta área das reconstruções históricas, apresentando alguns exemplos concretos destes tipos de procedimentos exemplificados com alguns aparelhos construídos pelos autores deste trabalho. A primeira dessas tendências corresponde à montagem de reconstruções fiéis aos instrumentos originais nos mínimos detalhes possíveis; a segunda tendência incorpora alguns elementos simplificadores em suas reconstruções históricas, acrescidos de um caráter problematizador das atividades pedagógicas desenvolvidas. Um terceiro tipo de alternativa, idealizada pelos autores deste artigo, consiste na utilização igualmente problematizadora de instrumentos híbridos construídos como sínteses de outros aparelhos históricos analisados. Um exemplo desta alternativa é apresentado e ilustrado com um aparato especialmente construído com tal finalidade.

As Reconstruções Históricas e o seu Fundamento Filosófico-Educacional
As reconstruções históricas têm constituído, nos últimos anos, uma forte corrente dentre os trabalhos que tratam da utilização da história da ciência no ensino das ciências (Brower & Singh, 1983; Chew, 1986; Gainer, 1981; Decker & Kipnis, 1997; Teichmann, 1999; para citar apenas alguns trabalhos). Apesar desta tradição de pesquisa já bem estabelecida, é comum, entretanto, que alguns iniciantes em atividades de investigação em Educação em Ciências, e por vezes nem tão iniciantes assim, associem, sem muito rigor, trabalhos envolvendo experimentos e instrumentos de laboratório com posturas empiristas na Educação. Tal associação é gratuita e muitas vezes sem qualquer fundamento a não ser um preconceito movido por uma certa fragilidade teórica no tocante a uma análise mais cuidadosa da relação teoria-experimento. Com efeito, o simples fato de alguém admitir, por exemplo, que a Física seja uma ciência experimental não carrega em si, necessariamente, a conotação de empirismo. Uma postura empirista, de forma mais precisa, está em verdade relacionada com a concepção de que as idéias científicas originam-se diretamente das observações, sem qualquer tipo de mediação por parte do observador. Em outras palavras: para o empirista as observações científicas são desprovidas de toda e qualquer carga teórica (Medeiros & Bezerra Filho, 2000). Admitir-se, portanto, que toda observação já traz em si mesma um certo recorte na realidade, recorte este propiciado pelo modo peculiar como o observador encara o fenômeno, já garante, de saída, que as observações não estejam sendo interpretadas de um modo tão ingênuo quanto aquele que costumeiramente os empiristas costumam atribuir às mesmas. Por outro lado, há de se considerar, também, em uma segunda acepção, que um experimento não é um simples contato direto com a realidade, que todo experimento equivale a uma tentativa de obter, na prática, resultados que possam aproximar aqueles previstos para casos ideais. Neste sentido, é fundamental que se perceba que a ciência trabalha com metáforas a respeito do real, com modelos, com construções mentais idealizadas que simplificam a complexidade da natureza. Somente desta maneira, apenas de posse de tais modelizações do real concreto em direção à construção de um real pensado da Ciência, é que podemos matematizar a natureza. Da forma bruta como a natureza se nos apresenta em todas as suas múltiplas complexidades, não há, efetivamente, como proceder uma tal matematização. O primeiro passo, absolutamente necessário e essencial, para matematizar a descrição da natureza é simplificar este real concreto. Sem uma tal simplificação a-priori, sem este recorte epistemológico inicial, não há como utilizar a Matemática na descrição do real (Matthews, 1990).
Diante desta complexidade da relação teoria-experimento, na qual os experimentos podem ser vistos como tentativas de atribuir graus de realidade às idealizações teóricas, de proceder objetificações de uma realidade idealizada, abre-se um vasto campo interpretativo. O significado a ser atribuído a uma observação, ao resultado de um determinado experimento, não é algo neutro, mas depende substancialmente do referencial teórico a partir do qual as coisas estejam sendo contempladas.
A questão filosófica, acima delineada, abre uma perspectiva para que seja repensado o próprio papel dos experimentos no desenvolvimento da ciência e em especial na Educação na Ciência.
Tomemos um simples exemplo, para que a questão fique posta de um modo mais claro. Os livros didáticos de Física costumam referir-se aos fenômenos da difração e da interferência como exemplos que corroboram a natureza ondulatória da luz ao mesmo tempo em que, por conseqüência, depõem contra a teoria corpuscular da luz. Experimentos feitos por estudantes sobre tais fenômenos, pretensamente, poderiam tornar patente uma tal característica ondulatória da luz. Este lugar comum, porém, parece ignorar a história da Física, pois por todo o século XVIII esses fenômenos foram considerados como fortes argumentos contra a teoria ondulatória da luz (Kipnis, 1999).
Experimentos com osciloscópios, por seu turno, nos quais são analisadas curvas de som, são tidos hoje como exemplos patentes na natureza ondulatória do som. As curvas obtidas para sons complexos são vistas, atualmente, a partir e um referencial teórico no qual o som é visto como descrito por ondas que se compõem de modo tal a produzir uma onda complexa que pode ser descrita segundo uma análise de Fourier. No século XVIII, entretanto, a própria descrição do som enquanto uma função de onda foi alvo de uma intensa polêmica entre Euler, Bernoulli e D’Alembert (Monteiro Júnior & Medeiros, 1999a; Monteiro Júnior & Medeiros, 1999b).
Também a história da pilha voltaica serve de excelente exemplo sobre o papel polêmico da interpretação dos experimentos naquilo que eles, porventura, possam significar a respeito do comportamento da natureza. O intenso debate ocorrido entre Galvani e Volta a respeito das interpretações a serem conferidas aos experimentos da agitação das pernas de uma rã ao serem tocadas por diferentes metais ilustra bem as múltiplas possibilidades de atribuição de significados que podem ser conferidas aos resultados experimentais (Kipnis, 1999).
De um modo geral, as disputas interpretativas, produtos de diferentes análises e sínteses de dados coletados constituem-se em características essenciais do desenvolvimento da Ciência. Conhecer tais disputas e, acima de tudo, poder inserir-se nas mesmas, ainda que de um modo simplificado, pode ser um ótimo exercício educacional para a compreensão da natureza da Ciência (Crenshaw, 1979).
Esta tônica preside a preocupação manifesta por muitos dos que têm dedicado-se à reconstrução de experimentos históricos. Longe, portanto, do sonho empirista de reproduzir algum experimento mágico que tivesse, por si só, o condão de revelar a verdade da natureza, a corrente dos que têm enveredado pelo terreno das reconstruções históricas está pautado, sobretudo, por fortes preocupações filosóficas (Freundlich, 1980, Heering, 1999, Kipnis, 1999).

Tendências Metodológicas no Uso das Reconstruções Históricas como um Recurso Pedagógico
Uma primeira corrente na direção das reconstruções experimentais é aquela representada pelos trabalhos do grupo de Oldenburg. Sua tentativa tem sido a de reproduzir fielmente os detalhes dos aparelhos envolvidos nos experimentos, assim como a de produzir textos que dêem conta da atmosfera cultural da época em causa. Apesar dos relativos sucessos obtidos, do ponto de vista educacional, a proposta de Oldenburg é de execução extremamente complexa. Para começar, a tentativa de reprodução fiel dos aparelhos utilizados esbarra, por vezes, em enormes dificuldades a serem contornadas. De outra parte, a tentativa de reproduzir o contexto teórico e cultural de disputas que dêem conta de toda aquela complexidade contida nos instrumentais utilizados envolve uma dificuldade intrínseca que não é, igualmente, de ser subestimada (Heering, 1999).
Uma segunda corrente dentro desta tendência de reconstruções experimentais é aquela desenvolvida pelo grupo de Minnesota, mais especificamente o grupo da Bakken Libray and Science Museum liderado por Nahum Kipnis. Para esta segunda corrente, o que estaria em jogo seriam os princípios fundamentais dos conteúdos a serem discutidos. Deste modo, as reproduções históricas desenvolvidas por este grupo não têm se prendido aos detalhes técnicos constitutivos dos aparelhos utilizados. Tenta-se, assim, preservar a essência dos fenômenos estudados sem deter-se em dificuldades tidas como de segunda ordem. Com uma tal simplificação da aparelhagem, com a substituição de alguns materiais, por exemplo, obtêm-se, igualmente uma maior agilidade naquilo a ser discutido nos textos teóricos que acompanham a proposta (Kipnis, 1999).
Na nossa própria experiência educacional, esses dois tipos de abordagens foram explorados, com alguns relativos sucessos e muitos percalços, ao longo de vários anos de ensino na Universidade. Deste modo, desenvolvemos abordagens compatíveis com algumas reconstruções experimentais rigorosas, como aquelas do grupo de Oldenburg. Neste campo situamos montagens como a do duplo cone de George Adams (século XVIII) e as disputas interpretativas sobre o aparente paradoxo de um corpo sólido que aparenta subir ladeiras. Uma tal discussão, que tenta reproduzir aquelas pioneiras disputas ocorridas nas célebres conferências públicas do mestre inglês, levou-nos, por exemplo, a colocar em perspectiva as questões relacionadas com o movimento do centro de massa de um corpo. De modo análogo, reproduzimos fielmente a luneta de Galileu, incluindo aí certas imperfeições no polimento das lentes. Também as muitas e diferentes reconstruções de garrafa de Leyden são um exemplo vivo deste nosso tipo de percurso dentro da corrente originalmente definida pelo grupo de Oldenburg.
No tocante aos experimentos simplificados, semelhantes aos realizados pelo grupo de Minnesota, nossa experiência foi um pouco mais ampla, até mesmo pelas facilidades operacionais que uma tal abordagem oferecia-nos, comparativamente com a primeira. Para discutirmos os problemas ligados às tentativas históricas bem sucedidas de elevação de tensão, optamos por reproduzir uma bobina de Rumkorff e discutir os problemas físicos e as interpretações a ela inerentes. Entretanto, como se tratava de um instrumento bem mais complexo do que aqueles descritos anteriormente, decidimos fazer algumas modificações que, preservando a essência do seu funcionamento, introduzissem consideráveis elementos de simplificação construtiva e de melhoria da sua performance. Assim sendo, utilizamos, por exemplo, na confecção da base do instrumento um material resistente, isolante e simultaneamente transparente, portanto bem melhor que a madeira originalmente utilizada: o acrílico, material não disponível na época em que um tal instrumento foi concebido. Tentando, também, reduzir as dimensões do aparelho, sem sacrificar suas características de desempenho, introduzimos um capacitor auxiliar.
No tocante às garrafas de Leyden, por exemplo, nesta segunda abordagem, introduzimos um sem número de modificações constitutivas que nos auxiliaram a criar situações mais propícias ao levantamento de situações-problema em sala de aula. Como um exemplo, utilizamos garrafas de várias alturas, com armações as mais variadas, como algumas propositadamente próximas do borne superior e que assim facilitassem as descargas e complicassem a acumulação de cargas. Todas essas modificações propiciaram situações de disputas interpretativas que ensejaram importantes comparações históricas.
Um terceiro tipo de abordagem foi, também, originalmente desenvolvido por nós: o estudo de uma certa quantidade de instrumentos referentes a uma determinada temática, seguida de uma análise dos seus elementos constitutivos principais. A esta análise, feita com os estudantes em sala de aula, seguiram-se várias tentativas de sínteses daqueles elementos identificados e tidos como principais nos funcionamentos dos instrumentos estudados. A nossa intenção era criar um outro instrumento híbrido que reunisse as características principais daqueles discutidos e que contivesse certas vantagens na ilustração pedagógica dos princípios físicos discutidos. Um exemplo, para nós importante nesse caminho, foi o estudo da história dos mecanismos de registro do som, da análise dos principais instrumentos envolvidos em tal história e da síntese e construção de novo instrumento híbrido que melhor ilustrasse a natureza ondulatória do som. Detalhes deste nosso trabalho sobre os mecanismos de registro do som podem ser encontrados em Monteiro Jr & Medeiros (2001).

Conclusões
Diante das nossas experiências, no decurso dos últimos anos, no campo das reconstruções históricas, somos levados a concluir algumas questões que nos aparecem importantes, do ponto de vista educacional.
A primeira, é que qualquer que seja a modalidade de reconstrução histórica adotada, ela não deverá, jamais, limitar-se apenas à montagem e à exibição em sala de aula de um determinado aparelho; considerações de natureza teórica são igualmente fundamentais. A segunda, é que não basta que sejam fornecidas apenas explicações físicas sobre o funcionamento do aparelho em causa, se desejarmos introduzir a dimensão da natureza da Ciência na sala de aula. Precisaremos, neste caso, de certo modo, reconstituir também um clima das disputas interpretativas sobre os fenômenos tratados.
Igualmente importante, parece-nos, que se considere a questão da introdução de informações históricas que municiem as necessárias comparações com o debate travado em sala de aula. A introdução dessas informações históricas pode ser feita, por exemplo, como faz o grupo de Minnesota, logo no início da apresentação de um novo tema. Em nossa experiência, entretanto, esse não nos pareceu o melhor caminho, pois um conhecimento antecipado das posições em disputa pareceu-nos influenciar os estudantes nas suas próprias discussões travadas em sala de aula. A abordagem que nos pareceu mais conseqüente foi a da inserção de informações históricas em meio ao debate de sala de aula, como um contraponto às discussões travadas pelos próprios estudantes. Esse tipo de inserção da história fez com que os nossos alunos se sentissem partícipes da história ao encontrarem inesperadas semelhanças das suas próprias opiniões com algumas posições historicamente surgidas ao longo do desenvolvimento histórico da Física. Esta alternativa pareceu, ainda, bem mais vantajosa que a inserção de dados históricos posteriormente ao debate das questões físicas pertinentes. Neste caso, quando as informações eram feitas a posteriori, muitos estudantes pareciam, simplesmente, não demonstrar o menor interesse pelo seu conhecimento.
De um modo geral, a opção pedagógica pelas reconstruções históricas e pelas suas conseqüentes problematizações em sala de aula, é uma tarefa árdua e ainda em aberto, apesar de conseqüente e promissora. Ela mostra-se como um desafio para todos aqueles professores empenhados em trazer para o ensino da Ciência um pouco mais da dimensão histórica da pesquisa com todas as excitações e percalços que caracterizaram um tal caminhar.
Referências Bibliográficas
BROUWER, W. & SINGH, A. The Historical Approach to Science Teaching. The Physics Teacher. Vol.21, n4, 1983.
CHEW, V. Bring Out Your Dead Apparatus. The Science Teaching Collection at South Kensington. School Science Review. Vol.68, n242, 1986.
CRENSHAW, N. Teaching the History of Science through Inquiry. American Biology Teacher. Vol.41, n9, 1979.
DECKER, B. & KIPNIS, N. The Stethoscope: an Investigation. Rediscovering Science Newsletter. Vol.4, n1, 1997.
FREUNDLICH, Y. Philosophy of Science and the Teaching of "Scientific Thinking". Teachers College Record. Vol.82, n1, 1980.
GAINER, M. Construction of a 17th Century Telescope: An Experiment in the History of Astronomy. Physics Teacher. Vol.19, n1, 1981.
HEERING, P. History of Science in Teaching: Understanding Science by Using Replications of Historical Instruments. Universitat Oldenburg. Research Group on Higher Education and History of Science. http://www.physik.uni-oldenburg.de/ehf/HISTODID/selfpres_e.html
Acessado em 2 de março de 1999.
KIPNIS, N. From the Danube to the North Sea. Rediscovering Science Newsletter, published for secondary science teachers by the Bakken Library and Museum. Vol. 3, n1, 1995.
MATTHEWS, M. History, Philosophy and Science Teaching: A Rapprochement. Studies in Science Education, vol. 18, 1990.
MEDEIROS, A. & BEZERRA FILHO, S. A Natureza da Ciência e a Instrumentação para o Ensino da Física. Ciência & Educação, Vol. 6, n.2, 2000.
MONTEIRO JR, F. & MEDEIROS, A. A Matematização da Corda Vibrante no Século XVIII. Atas do IV Encontro Pernambucano de Educação Matemática. Recife, 1999a.
MONTEIRO JR, F. & MEDEIROS, A. O Século XIX e as Séries de Fourier. Atas do IV Encontro Pernambucano de Educação Matemática. Recife, 1999b.
TEICHMANN, J. Studying Galileo at Secondary School: A Reconstruction of His "Jumping-Hill" Experiment and the Process of Discovery. Science and Education.Vol.8, n2, 1999.


terça-feira, 15 de novembro de 2011

A Lei de Stevin e a Mineração Romana com a Técnica do Ruina Montium

Alexandre Medeiros (PhD, University of Leeds – Professor de Física e Astronomia, UFRPE)

SÉRIE DE TEXTOS: A FÍSICA NO DIA A DIA
AUTOR: Alexandre Medeiros
TÓPICO: HIDROSTÁTICA: LEI DE STEVIN
TÍTULO DO ARTIGO: A Lei de Stevin e a Mineração Romana com a Técnica do Ruina Montium

Como os Antigos Romanos Conseguiram Remover Completamente Montanhas Inteiras na Mineração de Las Medulas? Qual a Física subjacente a este feito?
Por volta do ano 25 AC, o imperador romano Augusto iniciou a mineração de ouro na região de Las Medulas, na Espanha (figura abaixo). Pelos dois séculos seguintes, os romanos utilizaram em tal exploração uma técnica hidráulica revolucionária para a época, denominada “Ruina Montium” e que consistia literalmente em cortar as rochas com poderosos jatos de água dirigidos a partir de um reservatório situado até 250 m acima da local da jazida.


A grande quantidade de água necessária para a mineração era retirada dos rios que nasciam nas montanhas da próxima Serra de La Cabrera. Ela era, então, trazida por sete longos aquedutos que atingiam a extensão de 300 quilômetros; sendo em seguida armazenada em enormes reservatórios nas montanhas. 

Com esses jorros de água de alta pressão os romanos abriam cavidades e túneis nas montanhas. Os aquedutos ainda eram utilizados mais tarde também para enxaguar os gigantescos depósitos de ouro. De uma forma resumida, pode-se dizer que eles “arruinavam as montanhas”, numa tradução literal do termo Ruina Montium.

A técnica permitia explodir montanhas inteiras com o simples auxílio da variação da pressão exercida pela água graças ao aumento da profundidade. Assim procedendo, eles estavam utilizando intuitivamente aquilo que posteriormente viria a ser conhecido, no século XVII, como a Lei de Stevin:
Onde delta P é a variação de pressão, é a massa específica da água, g é a aceleração da gravidade e h é a profundidade do túnel.


Os romanos escavavam, nas paredes dos reservatórios, túneis inclinados profundos (figura acima) que penetravam na montanha. Era a grande profundidade desses túneis que garantiria a elevada pressão a ser exercida posteriormente pela água. Eles, então, vedavam as entradas desses túneis com comportas e enchiam os reservatórios com o auxílio dos túneis de condução de água e dos aquedutos. Quando os reservatórios estavam cheios, os romanos abriam as comportas; liberando a entrada da água Isso fazia com que fosse exercida uma enorme pressão nas partes mais baixas do interior da montanha (lei de Stevin) o que a escavava lentamente e terminava por causar a explosão da mesma.
O monte Medilianum, por exemplo, que então dominava a paisagem da região, foi integralmente desfeito por sucessivas enxurradas de água controladas pelos exploradores romanos.

A exploração do ouro em Las Medulas, durante os dois séculos de trabalho, envolveu cerca de 60 mil trabalhadores livres e trouxe aos romanos aproximadamente 1,65 milhões de quilos de ouro. No século III da nossa era, o ouro acabou e os romanos deixaram a região completamente devastada. Como não houve mais qualquer atividade extrativa na região, desde então, os espetaculares traços dessa marcante e devastadora tecnologia hidráulica da Antiguidade permanecem visíveis até hoje.


PARA CITAR ESTA FONTE: Medeiros, Alexandre. A Lei de Stevin e a Mineração Romana com a Técnica do Ruina MontiumFísica e Astronomia_Alexandre Medeiros, BLOG. http://alexandremedeirosfisicaastronomia.blogspot.com/2011/11/lei-de-stevin-e-mineracao-romana-com.html. Acessado em 15 de Novembro de 2011. (atualizar a data)


 

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Conversando com Marcgrave: A Origem da Astronomia no Hemisfério Sul

Conversando com Marcgrave: A Origem da Astronomia no Hemisfério Sul
Alexandre Medeiros & Fabio Araújo

Em 2005, eu e o professor Fabio Araújo publicamos um artigo no número 2 da Revista Latino-Americana de Educação em Astronomia sobre a vida e a obra de George Marcgrave, o primeiro astrônomo a exercer sua atividade no Brasil em um verdadeiro observatório, no Recife do século XVII, em pleno período da colonização holandesa. O referido texto foi em parte uma ampliação factual e interpretativa de uma narrativa exposta inicialmente na monografia de graduação de Fabio no curso de Física da UFRPE, feita sob minha orientação. Vários outros fatos históricos foram acrescidos e um estilo de uma “conversa fictícia com o referido personagem histórico” foi adotado para tornar a sua compreensão mais acessível a um grande número de leitores da revista. O artigo é intitulado:
Conversando com Marcgrave: A Origem da Astronomia no Hemisfério Sul
Ele encontra-se disponível ON LINE no site da revista no LINK abaixo:

Rômulo Argentière e a Divulgação Científica no Brasil

Alexandre Medeiros (PhD, University of Leeds – Professor de Física e Astronomia, UFRPE)

Rômulo Argentière e a Divulgação Científica no Brasil


Ciência e Consciência na Vida e na Obra de Rômulo Argentière
Rômulo Argentière é um desses nomes que o Brasil ainda não soube reconhecer o seu real valor, deixando com isso de prestar-lhe o devido tributo. Argentière formou-se na Ecole de Physique et Chemie da Sorbonne em Paris, ainda nos anos 1930, quando a Física no Brasil começava apenas a ensaiar os seus primeiros passos. Ele foi pioneiro no minucioso levantamento geológico dos minerais radioativos e estratégicos no Brasil; pioneiro também na divulgação científica em nosso país, autor de vários artigos e livros científicos e de divulgação. Sendo poliglota – falava e escrevia em oito línguas – fez diversas traduções de obras importantes de vários idiomas, do inglês, do francês, do alemão e inclusive do russo. Dotado de uma vasta cultura científica e humanística, ele conseguiu produzir uma obra literária que motivou gerações para o estudo da ciência e em particular da Física e da Astronomia. Além de cientista e escritor de talento, Argentière foi também um nacionalista visionário, dotado de uma genuína consciência social.
Pensador de esquerda, ele lutou na campanha patriótica denominada de “O Petróleo é Nosso”, lado a lado com vultos históricos como o escritor Monteiro Lobato[i] – que foi inclusive seu padrinho de
casamento e um de seus melhores amigos – com o general Horta Barbosa e com vários outros
personagens históricos ilustres. Foi Monteiro Lobato quem descobriu o grande talento de Argentière para a divulgação científica e quem o levou para o terreno da literatura deste gênero. Juntos, os dois realizaram uma série de maravilhosas traduções dos melhores autores internacionais de ciência, criando uma tradição na história da divulgação científica brasileira.
Argentière publicou mais de três milhões de livros – um recorde absoluto, ainda hoje, em termos de livros de divulgação científica no Brasil – mas morreu pobre, na miséria, chegando a passar fome, em decorrência de problemas familiares e da completa falta de reconhecimento do Estado a quem ele prestara os seus mais valorosos serviços técnicos e científicos.
Tendo sido um professor notável e um conferencista brilhante – a quem o autor do presente artigo, teve o prazer de assistir a algumas de suas inúmeras palestras em Recife em 1973 – Argentière levou uma vida sem ambições pessoais, totalmente dedicada à pesquisa e à divulgação científica e aos muitos amigos que conquistou em vida com sua radiante simpatia, com o magnetismo da sua inteligência e o brilho da sua vasta cultura científica e humanista.
Educador influente, Argentière costumava dizer que “ser professor é combater as trevas”. Defendia ardentemente a liberdade acadêmica e certa vez, diante de uma intervenção arbitrária do governo na escolha de um reitor de uma instituição federal de ensino no Rio Grande do Norte, ele foi enfático em suas palavras, classificando a medida como uma: “intervenção indevida do poder central  na autonomia universitária” e assinalando ainda que: “é uma vergonha o que está se fazendo” (Argentière, In Rosado & Rosado, 2002, p. 78).
Homem decidido e corajoso, Argentière lutou pelos seus ideais com bravura e dedicação, mas também com ternura no coração; assim o descrevem os seus muitos amigos. Por abraçar, como dissemos acima, a causa nacionalista “O Petróleo é Nosso”, ele foi perseguido pelas autoridades mais reacionárias do país. Os seus conhecimentos científicos também lhe trouxeram alguns problemas com as autoridades governamentais ao escrever, em 1943, em plena Segunda Guerra Mundial, um artigo jornalístico no qual antevia e explicava em linhas gerais os princípios de funcionamento de uma bomba atômica e o uso da energia nuclear como elemento de destruição. Isso, em uma época em que o referido assunto era um alto segredo de Estado dos países aliados – a destruição de Hiroshima só ocorreria dois anos mais tarde. Segundo a sua própria narrativa:
Fui levado a interrogatório pelas Forças Armadas, mas me safei com a lógica: havia lido em algumas revistas especializadas da Inglaterra, às quais tinha acesso, que os cientistas norte-americanos estavam tentando separar o urânio 235 do urânio 238. Eu, como especialista, deduzi rapidamente que isso poderia desencadear uma grande liberação de energia que, possivelmente, seria usada com fins bélicos”, escreveu Rômulo, em uma de suas cartas. (Argentière, apud Mauso, 2002).
Como homem de esquerda, Rômulo referia-se sempre ao golpe de Estado perpetrado pelos militares em 1964, como a “revolução de primeiro de abril”, enfatizando, assim, de forma irônica, a origem daquele evento como a de um autêntico embuste. Certa vez, em uma carta a um amigo fraterno, ele se referiu com admiração a um seu ex-colega – Ortiz Monteiro – com palavras que dão uma clara ideia do que ele mesmo pensava sobre a ditadura militar que dominou o Brasil por três décadas: “A última vez que conversei com Ortiz Monteiro foi ao final de 64 ou 65, no qual ele me dissera que iria pedir aposentadoria do cargo para não ter de acusar velhos companheiros de jornada, por causa da revolução de 1o de abril. Nunca mais o vi e creio até que se mudou de São Paulo. Isto mostra a inteireza de seu caráter e de sua formação moral e educacional” (Argentière In Rosado & Rosado, 2002, p.60).
No início dos anos 60, Argentière, com seu pensamento de esquerda, não apenas emitia esse tipo de opinião, como exercia sobre os amigos uma considerável influência positiva. Um de seus muitos amigos, o jornalista Leonardo Bezerra, alude a esta influência em uma carta dirigida a Rômulo: “suas informações me tornaram um bolchevique paulista de 400 anos. /.../ E os planos do futuro seu Argentière? /.../ A situação de Cuba (como gostaria de ir lá) dá inveja! E a China, não irá por lá? E o resto do mundo, meu amigo, apesar de terem morto o Lumumba vai chegando ao limiar da grande era” (In Rosado & Rosado, 2002, pp.8-9).
Argentière, entretanto, tinha uma posição mais crítica do que a desse seu fraterno amigo e uma profunda consciência histórica da situação brasileira. Sem qualquer apego a fortuna pessoal e a bens materiais, Argentière sofria ao ver as péssimas condições de vida e a miséria do povo do Nordeste, mas tinha uma reflexão histórico-científica desta situação de penúria. Ele sabia, sobretudo, que as soluções técnicas e científicas existiam, pois dedicou os últimos vinte e cinco anos de sua vida a estudar o problema e a produzir uma obra científica magistral sobre o assunto, com mais de 4.000 páginas e intitulada: “O Ciclo d’Água no Nordeste Brasileiro”; mas que infelizmente, jamais foi publicada devido à total falta de interesse das autoridades governamentais deste país. Na atualidade, quando políticos mal informados, assessorados às vezes por técnicos a serviços de altos interesses econômicos, anunciam o desvio das águas do rio São Francisco como a redenção do Nordeste, seria no mínimo interessante consultar a obra de um cientista que dedicou 25 anos de sua vida ao estudo criterioso do problema da água no Nordeste. Mais que nunca é preciso e urgente resgatar a obra científica de Argentière, no mínimo como um alerta contra certas decisões políticas oriundas da falta de informações ou de uma análise pouco cuidadosa dos problemas. Se o problema for apenas a falta de informações, que se comece consultando a obra de quem estudou criteriosamente o problema. Decisões políticas equivocadas são muitas vezes tomadas como um resultado de análises mal elaboradas. Afinal, como dizia Santo Agostinho: “Não se deve creditar à má fé, aquilo que pode antes ser atribuído à ignorância”.
A reflexão histórica de Argentière lhe indicava que o problema da seca e da fome no Nordeste era, sobretudo, político e diretamente ligado à posse da terra, à estrutura fundiária, à consciência popular e a questão ética da falta de solidariedade humana: “um dos graves defeitos da economia do Nordeste é a falta de cooperativas e do espírito de cooperação entre seus habitantes. É ainda o resíduo do colonialismo lusitano que permanece como herança do nordestino” (Argentière In Rosado & Rosado, 2002, p.119). Para Argentière estava muito claro que o problema da fome e da sede no Nordeste não era apenas o problema da seca, mas também e principalmente o problema da cerca.
Fundamentado na sua leitura de Hobson (1949), Argentière afirmava que o crescimento da grande empresa tomava necessariamente o caminho da cartelização. E a sua metralhadora giratória não se dirigia apenas ao capitalismo monopolista em sua forma tradicional europeia e norte-americana, mas também ao capitalismo de Estado, travestido de regime socialista como no caso da poderosa China. Dizia Argentière: “no caso do Nordeste brasileiro, cujas minas de sheelita – as maiores do continente – foram prejudicadas pelo truste do tungstênio da China de Mao Tse Tung. Na realidade é um truste com todas as letras, em que a totalidade das ações de diferentes empresas é transferida para o conselho estatal que exerce completo controle na exportação e nos preços. O resultado dessa intervenção não se deve esperar: fecharam-se as minas de sheelita no Rio Grande do Norte, porque os produtores nordestinos, com algumas exceções, garimpeiros, não podem enfrentar os produtos chineses que vendiam o tungstênio pela metade do preço, mais o transporte do minerio até os portos chineses para portos brasileiros” (Argentière in Rosado & Rosado, 2002, pp.119-120). Argentière, deste modo, percebia que a competição capitalista internacional se dava também a partir de países ditos socialistas, mas que utilizavam práticas de mercado muito semelhantes às dos países assumidamente capitalistas. Referindo-se ao caso chinês, ele afirma que regimes socialistas deste tipo são estatizantes utilizando a sua concentração de poder político e econômico para formar verdadeiros trustes.
Ele alia a sua análise histórica e econômica da situação política a uma dimensão ética que lhe conduz a ver que no caso específico brasileiro algumas mazelas tradicionais contribuem para acentuar ainda mais o problema. Em 1995, já no final de sua vida, em pleno governo do presidente Fernando Henrique Cardoso, Argentière já comentava com sua esposa sobre a crescente gravidade do problema: “fiquei consternado e ao mesmo tempo indignado, pois nestes últimos anos de um governo corrupto, da falta de reconhecimento ao trabalho de toda uma vida... enfim, coisas que infelizmente acontecem no Brasil” (Argentière In Rosado & Rosado, 2002, p.98). O que diria ele nos dias atuais se não tivesse falecido? Parece que não há nada de mal em nosso país que não possa ainda piorar.
Argentière referia-se com indignação, sobretudo, ao governo Collor, que taxava como tendo sido uma verdadeira catástrofe (Argentière In Rosado & Rosado, p.83). A sua análise da situação política brasileira era, apesar de todas essas mazelas, otimista, pois vaticinava de forma profética: “nós apenas estamos sofrendo o impacto dessa crise: falta de trabalho, liquidação da mineração do Nordeste /.../ Esta elite mascarada que tome cuidado! O povo ainda está paciente. Mas, um dia esta paciência pode se esgotar. Então, não haverá forças militares capazes de deter esta onda” (Argentière In Rosado & Rosado, 2002, p.79).
Mas, afinal, qual foi a história deste personagem tão combativo no cenário da ciência no Brasil? Onde ele nasceu, onde estudou e o que escreveu? Como dimensionar a sua importância para o desenvolvimento da divulgação cientifica no Brasil? Retornemos, portanto, ao início da sua longa caminhada.

Fragmentos Biográficos de Rômulo Argentière
Rômulo Argentière era descendente de uma tradicional família originária da pequena cidade de Argentière, nos Alpes franceses, a mais de 1200 metros de altitude e de onde se tem uma bela visão do Monte Branco.  Mesmo na atualidade, aquela pequena cidade tem apenas 2000 habitantes e o seu nome deriva do fato de que ali havia mineração de prata – Argent – na Idade Média. O seu nome, portanto, significa “minerador de prata”, um curioso prenúncio para alguém que viria a se destacar, dentre outras coisas, como um dos maiores mineralogistas do Brasil. Chegando ao Brasil no século XIX, os Argentière fixaram-se inicialmente no interior de Minas Gerais, na divisa com São Paulo, onde ficam as cidades de Monte Sião, Poços de Caldas, Águas de Lindóia, Serra Negra e Amparo. Rômulo nasceu no lado paulista daquela região, na cidade de Amparo, em 23 de dezembro de 1916.
Argentière realizou os seus estudos primários em Amparo e por falar francês em casa desde pequeno, ele foi a criança escolhida para fazer um breve discurso de saudações para a célebre física e química francesa, de origem polonesa, Marie Sklodowska Curie quando de sua visita àquela cidade, de passagem para Poços de Caldas, em agosto de 1926[ii]. Argentière fez os seus estudos secundários
em Amparo, em Campinas e na cidade de São Paulo. Aquele seu contato, quando ainda criança, com a referida cientista – ele tinha na época, apenas 10 anos de idade – deve ter influenciado decisivamente o pequeno Rômulo, fazendo com que aos dezessete anos, ao concluir o curso secundário, ele tomasse a decisão de estudar em Paris, exatamente no Instituto até então dirigido por Marie Curie.
A viagem de Argentière para estudar em Paris se deu em fins de 1932, logo após o término da Revolução Paulista. Este é um momento histórico que coincide também com a fundação na cidade de São Paulo da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras – da qual se originaria a Universidade de São Paulo – também com forte influência europeia. Assim, no início dos anos trinta, ao mesmo tempo em que nas primeiras turmas de Física da Faculdade de Filosofia de São Paulo formava-se a primeira geração dos grandes físicos brasileiros – na qual despontariam nomes como os de Mario Schemberg, José de Leite Lopes e Marcelo Dammy – na França, Rômulo Argentière iniciava os seus estudos na “Ecole de Physique et Chemie” da Université Sorbonne em Paris, uma instituição que havia sido dirigida por Marie Curie. Para conseguir realizar este seu intento de estudar em Paris, o jovem Argentière foi agraciado com uma pequena bolsa de estudos do governo francês.
Marie Curie nasceu em 1867 e veio a falecer em 1934. Em 1932, no ano que Argentière chegou a Paris, ela já tinha 65 anos e sofria de leucemia, não exercendo mais as suas atividades docentes e de pesquisa. Argentière, ainda jovem, chegou, entretanto a ser aluno de Irene Curie e de Frédéric Joliot-Curie, respectivamente filha e genro de Marie Curie, ambos agraciados com o prêmio Nobel, como já haviam sido antes Marie e Pierre Curie[iii]. O jovem Rômulo recebeu uma forte influência tanto
científica quanto ideológica de Frédéric Joliot-Curie, um dos grandes baluartes da esquerda francesa, ativo militante comunista e herói da resistência francesa, além de um físico de notável talento.
Argentière estudou também com Paul Langevin, um outro notável físico francês. Ex-aluno de J. J. Thomson e um dos maiores físicos franceses do século XX. Argentière permaneceu na Ecole de Physique et Chemie até 1938 quando recebeu o seu diploma de bacharel em Ciências Físicas, Químicas e Matemáticas, especializando-se no campo da radioatividade natural. Argentière cursou ainda, paralelamente, o curso de Engenharia de Minas na “Ecole National Superieur des Mines”.
Em 1938, com a proximidade da Segunda Guerra Mundial, ele voltou ao Brasil, sem haver ainda concluído o seu curso de Engenharia, só retornando à França para concluí-lo em 1948, três anos após o término do conflito.
Após o seu retorno ao Brasil (1938), Argentière lecionou Física em alguns colégios de São Paulo e logo começou a sua longa e profícua carreira como técnico, cientista e escritor de divulgação científica. Nesta mesma época, ele foi redator de ciências da União Jornalística Brasileira na qual trabalhavam Monteiro Lobato e Menotti Del Pichia. Ele foi também contemporâneo de outro notável pioneiro da divulgação científica no Brasil, o médico e professor José Reis. Nesta fase inicial, Argentière escreveu vários artigos de divulgação para diversos jornais: “Jornal da Manhã”, “A Noite”, “O Estado de São Paulo”, “Folha da Manhã”, “Diário de São Paulo”, “O Roteiro”, “O Planalto” e “O Tempo”.
Argentière foi, também, redator técnico do Ministério da Fazenda de 1942 a 1948 e assistente técnico do Consulado Britânico na seção de “matérias primas” durante a segunda Guerra Mundial de 1942 a 1945. No mesmo dia em que o Brasil entrou na Segunda Guerra Mundial – 20 de agosto de 1943 – Argentière foi nomeado pelo presidente Getúlio Vargas para o cargo de redator técnico do Ministério da Fazenda, cargo este que ele acumulou durante o conflito com o posto de assistente técnico do Consulado Britânico em São Paulo. Por força de suas obrigações, Rômulo passou então a ter a incumbência de localizar jazidas de minerais estratégicos destinados ao esforço de guerra aliado. Ele, de início, tinha a tarefa de acompanhar vigilantemente os especialistas norte-americanos em busca de minérios para a indústria bélica daquele país. Desde então, passou a viver parte do ano no Nordeste como consultor e pesquisador de empresas de mineração.
Por esta época ele já havia se graduado pela Ecole de Physique et Chemie de Paris, mas não havia ainda concluído os seus estudos de Engenharia de Minas, interrompidos com a eclosão da guerra. Fez então cursos – que o introduziram naquela nova especialidade – na Escola Politécnica e no Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo e logo em seguida na Escola de Minas de Ouro Preto e na Escola de Engenharia de Belo Horizonte, onde passou a ser discípulo do geólogo Djalma Guimarães[iv].

De 1948 a 1956, Argentière foi consultor-técnico do Estado Maior das Forças Armadas, tendo prestado relevantes serviços no tocante ao problema dos minerais radioativos. Em 1950, elaborou o projeto sobre a criação da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), apresentado na câmara federal pelo deputado nacionalista Euzébio Rocha, tendo o referido órgão sido criado apenas em 1956.
Em 1951, Argentière viajou à Polônia, em plena época da guerra fria, para participar do I Congresso Internacional para a Aplicação Prática da Energia Nuclear. De lá ele seguiu para Leningrado, na União Soviética[v], onde fez cursos de Geoquímica baseados nos trabalhos de Feraman. Em seu retorno ao
Brasil Argentière introduziu novas técnicas nos trabalhos de campo de localização de jazidas minerais em colaboração com seu mestre Djalma Guimarães.
A partir de 1956, Argentière passou a fazer parte dos quadros da recentemente criada CNEN, trabalhando no serviço de campo, ou seja, na prospecção de minerais radioativos e estratégicos no Nordeste – principalmente tório e urânio – até 1960. Foi devido a este seu engajamento nestes estudos geológicos em busca da localização de minerais estratégicos, que Rômulo Argentière viria a se tornar familiarizado com a região Nordeste do Brasil e um conhecedor privilegiado da sua Geologia. Ele trabalhou também na prospecção de campo para várias firmas mineradoras em São Paulo e em outras regiões do Brasil. Entretanto, apesar de trabalhar para o governo, Argentière era um crítico ácido do programa nuclear brasileiro, em especial das usinas de Angra dos Reis.
O Nordeste tornou-se, desde os anos 40, uma das paixões de Rômulo Argentière. Aos 78 anos, em 12 de dezembro de 1994, já há muito tempo morando no Nordeste, Argentière casou-se novamente; desta vez no interior do Rio Grande do Norte, em Carnaúba dos Dantas, com a professora primária Marinês Dantas, que já era sua companheira há vários anos. Foi em Carnaúba dos Dantas que Argentière morreu, em 1995, debilitado pelo abandono governamental, pela fome, por um câncer no esôfago, por um derrame cerebral e por três acidentes automobilísticos. Apesar de toda a sua luta em prol das causas nacionais, de toda a sua abnegação na produção de uma literatura de divulgação científica de qualidade, ele veio a morrer na mais absoluta miséria no interior do Rio Grande do Norte. Já velho, ele passou fome e morreu em 1995 como um indigente, sem qualquer amparo das autoridades do país pelo qual dedicou toda a sua vida. Amparado apenas pela esposa e pelos seus amigos mais próximos – como o fiel Vingt-Un Rosado Maia, que tentou aliviar o seu sofrimento, infelizmente sem o sucesso desejado[vi]Argentière teve um fim que foi bem descrito por outro de seus melhores amigos, o astrônomo amador cearense Rubens de Azevedo[vii].
Rubens de Azevedo além de grande amigo de Rômulo foi seu companheiro por quase 14 anos no observatório Capricórnio, fundado em São Paulo por ele e por Jean Nicolini[viii].

Azevedo escreveu sobre Argentière uma frase lapidar: “meu velho Rômulo teve uma bela vida de trabalho científico: viveu plenamente e derramou conhecimentos por todo o Brasil através de seus magníficos livros. Infelizmente teve um triste fim.” (Azevedo in Rosado & Rosado, 2002, p.92). A biografia e a obra de Rômulo Argentière permanecem, de certo modo, ainda esquecidas e pelo seu valor precisam ser resgatadas, preservadas e divulgadas para as gerações mais jovens.
Este texto é uma tentativa singela de recuperar, ao menos em parte, a memória de uma parcela da vida e da obra deste importante personagem histórico brasileiro que foi Rômulo Argentière. É uma tentativa de prestar-lhe uma homenagem póstuma através de um resgate – ainda que forçosamente incompleto – de sua biografia.

A Extensão e a Importância da Obra de Divulgação Científica de Argentière       
A extensa e valiosa obra de divulgação científica de Rômulo Argentière inclui as suas muitas palestras e os seus inúmeros escritos. Em suas muitas viagens pelo Brasil jamais deixou de proferir palestras e divulgar com bastante eloquência a Ciência para o grande público. De 1938 a 1967 ele publicou mais de 300 artigos científicos ou de divulgação sobre os mais variados temas.
Aliada à sua atividade técnico-científica e ao seu empenho em campanhas nacionalistas, Argentière foi, sobretudo um profícuo divulgador da ciência em nosso país tendo incentivado gerações a enveredarem pelos mistérios e pelos encantos da Física, da Astronomia e da Astronáutica. Ele publicou centenas de artigos científicos e de divulgação em periódicos nacionais e internacionais e mais de trinta livros de divulgação científica. Além disso, foi um conferencista brilhante apresentando ao longo de sua vida mais de quinhentas palestras de divulgação sobre os mais variados temas científicos: Mineralogia, Radioatividade, Geologia, Astronomia, Astronáutica, Física e Geoquímica. Ao final de sua vida ele voltou a sua preocupação para as questões ambientais, tendo inclusive escrito um livro sobre este tema. Argentière era um poliglota, dominando sete idiomas, além do português: inglês, francês, espanhol, italiano, alemão, russo e flamengo. Traduziu diversas obras de valor para o português, dentre elas: do alemão, “Aforismo para a Sabedoria da Vida” de Arthur Schopenhauer; do inglês, “A Ciência Avança” de Rogers Rusk; do russo, várias obras de Yakov Perelman, Abraham Ioffe, Fessenkov Oparin e Anatoly Kudriavtsev.
A sua ligação com a União Soviética e em especial com a causa do socialismo e com a ciência produzida naquele país, são traços marcantes de sua atividade intelectual. Mas, foram, sobretudo os livros de sua própria autoria que consolidaram o renome de Argentière como um dos grandes pioneiros da divulgação científica no Brasil. Sua obra é vasta incluindo uma grande variedade de títulos apontados na bibliografia do presente artigo. Em uma determinada área do conhecimento, entretanto, a vasta obra de divulgação científica de Argentière atrai a nossa atenção de um modo particular: naquela dedicada à divulgação da Astronomia.
De fato, os temas ligados à Astronomia ocupam um lugar de relevo na obra de divulgação científica de Rômulo Argentière. Ele foi um entusiasta do estudo desta ciência e um notório divulgador da mesma para a juventude numa época em que o acesso à informação científica de qualidade para o povo não era uma coisa de fácil obtenção. Pelo conjunto de sua obra ele chegou a ganhar a medalha do mérito jornalístico da Associação dos Profissionais de Imprensa de São Paulo. Argentière fundou ou auxiliou a fundar várias associações amadoras de estudos da Astronomia no país. Ao lado de outros entusiastas como ele – como, por exemplo, Jean Nicolini e Rubens de Azevedo, ele ajudou a fundar o Observatório Capricórnio em Campinas.
De consciência cultural latino-americana, Argentière foi membro efetivo de Associações de Astronomia da Argentina, Uruguai, Chile, Peru e Equador. Foi sócio honorário da Associação de Astronomia de Cambuquira, da Sociedade Brasileira dos Amigos da Astronomia, da União Brasileira de Astronomia, da qual foi membro do conselho científico e diretor da Liga Latino-Americana de Astronomia. Sempre voltado para a divulgação da ciência e não apenas para a sua produção, Argentière construiu uma obra alcance popular tão ampla que demanda um certo esforço para ser apreciada em sua inteireza. Na atualidade ainda se edita no Brasil muita coisa importada sem o mesmo valor da obra pioneira de Rômulo Argentière. Isto implica em uma necessidade histórica cada vez maior de que a sua obra seja conhecida. Além disso, há a necessidade de que se publique finalmente a sua obra maior, ainda inédita, sobre o estudo do ciclo das águas no Nordeste. Esta necessidade é tanto mais atual, quanto mais se agrava o problema do abastecimento de água na Terra, problema este causado nos últimos anos pela agressão suicida do próprio ser humano aos recursos naturais do nosso planeta.
Uma apreciação, porém, ainda que em parte, da importância desta importante e pioneira obra de divulgação científica construída por Argentière, implica em fazer-se uma análise historicamente situada da mesma e que leve em conta, portanto, o fato de que a sua contribuição é necessariamente datada. Não podemos tentar julgar com o nosso conhecimento atual do século XXI a justeza de conceitos emitidos por vezes há cinquenta anos atrás. É preciso, deste modo, adotar-se uma perspectiva histórica cuidadosa para que se possa de fato aquilatar com justiça o valor real da contribuição de Argentière à difusão popular e pioneira da ciência no Brasil e à luta por causas tão belas como a da educação popular, do combate à fome e à seca e a preservação do meio ambiente. No caso particular da divulgação da Astronomia isso poderia ser conseguido apreciando-se as mensagens contidas e o estilo leve e claro por ele adotado em obras como: “Átomos e Estrelas” (1957), “A Terra” (1957), “O Sol e os Planetas” (1959) e “Astronáutica” (1966). Uma análise detalhada destas obras demanda, porém, um esforço que transcende os horizontes do presente trabalho, mas que se coloca como um importante desafio que mereceria ser encarado em outros estudos deste ou de outros pesquisadores cujos interesses estejam ligados tanto à ciência (especialmente à Astronomia), quanto à sua divulgação e mais especificamente à importância da mesma no contexto mais amplo da educação em ciências.


NOTAS


[i] Monteiro Lobato foi um dos maiores autores brasileiros. Ele destacou-se também na campanha nacionalista em defesa da exploração dos nossos recursos naturais; a célebre campanha intitulada “O Petróleo é Nosso”. Neste contexto, Lobato notabilizou-se, inclusive, com o seu livro “O Escândalo do Petróleo”, de 1936. Ele tornou-se, porém, conhecido principalmente pelos seus livros infantis, com personagens fascinantes como Emília, Narizinho, Pedrinho e o Visconde de Sabugosa, todos eles habitantes do Sítio do Pica Pau Amarelo. Lobato, entretanto, mas, foi autor de uma obra literária bem mais vasta que a infantil, assim como de traduções de importantes obras científicas, dentre elas a do influente livro “A Evolução da Física”, de Albert Einstein e Leopold Infeld.

[ii] Marie Curie e sua filha Irene Curie vieram ao Brasil em agosto de 1926. Madame Marie havia sido convidada pelas autoridades brasileiras para visitar o país e inaugurar as instalações do então recém criado Instituto do Radium de Belo Horizonte. Ela visitou o Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais tendo recebido o título de Membro Correspondente da Academia Brasileira de Ciências, fato este que, como assinala Massarani (1998), tornou-se um marco na participação feminina no campo da ciência e da tecnologia no Brasil. A importância dada à sua visita foi tanta que as suas conferências chegaram a ser irradiadas pela Rádio Sociedade do Rio de Janeiro.

[iii] Frederic Joliot-Curie e sua esposa Irene Curie ganharam o prêmio Nobel de Química de 1935 pelos seus trabalhos sobre a estrutura atômica e a descoberta da radioatividade artificial.

[iv] Djalma Guimarães era sobrinho do grande poeta e romancista brasileiro Bernardo Guimarães (1825-1884). Ele seguiu os passos do célebre geólogo francês Claude-Henri Gorceix – descendente do célebre físico e químico francês Joseph Gay-Lussac. Gorceix era também tio por afinidade de Djalma e havia sido o introdutor dos estudos geológicos no Brasil e fundador da Escola de Minas de Ouro Preto. Djalma formou-se pela referida Escola, na turma de 1919 tornando-se um dos maiores geocientistas do Brasil. Ele descobriu  uma variedade de microlita uranífera denominada mais tarde, em sua homenagem, de djalmaíta. Quando Djalma se formou pela Escola de Ouro Preto, o pequeno Rômulo Argentière, nascido em 1916, tinha então apenas três anos de idade.

[v] Rômulo Argentière guardou sempre uma grande simpatia pelo povo russo e pela ciência soviética. Ele não apenas fez várias traduções do russo, como manteve também uma ativa correspondência com seus colegas cientistas membros da Academia Soviética de Ciências.

[vi] Vingt-Un Rosado Maia conta como foram os últimos dias do grande cientista. “Eu fui buscá-lo para fazer a cirurgia em Mossoró, não deu certo. Levei para Dr. Ernani Rosado, para uma cirurgia que durou 6 horas. Eu tinha, juntamente com Frederico Rosado, pleiteado a Garibaldi uma pensão especial de 10 salários mínimos. Rômulo estava no hospital internado e Garibaldi me comunicou, já assinei o ato, dei a pensão a seu amigo. Eu pensei: Rômulo está na UTI, a vida toda ele esperou esse decreto, a Assembléia votou, José Agripino engavetou, Garibaldi assinou. Se eu for dizer agora, esse homem morre hoje de noite. Não morreu de noite, mas morreu na manhã seguinte” .

[vii] Nascido em 30 de Outubro de 1921 na cidade de Fortaleza, o astrônomo cearense Rubens de Azevedo é autor entre outros dos seguintes livros: Selene*, a lua ao alcance de todos; Lua degrau para o infinito; No mundo da Estelândia; Na era da Astronáutica; Lenda feita de pedra; O cometa de Halley e a Bandeira Nacional. Foi pioneiro ao criar, em 1947, a primeira Sociedade Brasileira dos Amigos da Astronomia (SBAA), e, em 1948 fundar o primeiro observatório popular Brasileiro, o Observatório Popular Flammarion e também, a Sociedade Brasileira de Selenografia, em São Paulo. No mesmo ano, desenhou o Primeiro Mapa Lunar Brasileiro, com 80 cm, que se encontra exposto no Museu Nacional de Astronomia. Durante um eclipse lunar, descobriu um vale lunar, cuja existência foi confirmada por observatórios chilenos, os quais à época, sugeriram à União Astronômica Nacional a atribuição do nome "Vale Azevedo". Descobriu também um fenômeno Lunar Transitório na Cratera Aristarco, confirmado pelo astronauta Edwin Aldrin quando em órbita lunar. Foi professor de Selenografia na Escola Municipal de Astrofísica em São Paulo, professor assistente de Astronomia e Astronáutica da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Sorocaba e professor de Geografia Astronômica na Universidade Estadual do Ceará. Fundou o Observatório Astronômico da Paraíba e participou durante seis anos como membro ativo do Lunar International Observers Network, criado pela Nasa para assessorar as missões Apolo. É responsável pela instalação de associações e clubes de Astronomia e de observatórios e planetários no Brasil. É pioneiro na luta pela implantação de um planetário no Ceará.

[viii] Jean Nicolini, nasceu na cidade de São Paulo/ SP no dia 9 de abril de 1922 e faleceu no Município de Americana no dia 23 de julho de 1991, morte esta, ocasionada por um acidente automobilístico na Rodovia Luiz de Queiroz, quando se dirigia ao Observatório Municipal de Americana – OMA, para desempenhar suas funções de astrônomo. Seus pais eram franceses, razão pela qual cultivava grande admiração por aquele país e fluência no idioma francês. Jean era um homem que perseguia seu ideal e o conquistava a todo custo. Autodidata, foi apaixonado pelas ciências humanas e exatas, mas seu grande interesse e paixão era norteado para a Astronomia, que exercia nele o maior dos fascínios. Jean fundou no dia 15 de outubro de 1948, na cidade de São Paulo, o Observatório do Capricórnio - Entidade Civil Sem Fins Lucrativos”, realizando assim seu grande sonho. Entre os colaboradores da fase inicial do Observatório destacavam-se: Rubens de Azevedo, Rômulo Argentière, Paulo Gonçalves, Francisco Jehovah, Frederico Funari e Norberto Parada. Em 1976, muda-se para a cidade de Campinas/ SP com sua família, quando recebe convite do então Prefeito Lauro Péricles Gonçalves, por ocasião da criação do Observatório de Campinas, para que o Observatório do Capricórnio assine convênio de atuação técnico científico, operacionalizando as atividades, numa atuação conjunta. Assim em 15 de janeiro de 1977 inaugurava-se a Estação Astronômica de Campinas. O primeiro Observatório Municipal do País estava implantado e o sonho de Jean Nicolini realizado.